quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Instituto Histórico e Geografico de Brasília





JK E NIEMEYER

Belo Horizonte já experimentava momentos de euforia com a administração dinâmica de seu novo Prefeito. Cheio de planos, JK desenvolvia um formidável programa de obras e realizações na capital mineira. Sempre à frente de seu tempo, sonhava com planos espetaculares para urbanização do Bairro da Pampulha, localizado nos arredores de Belo Horizonte. Havia ali o início de uma barragem feita para formação de um lago. A cidade parecia um grande canteiro de obras: buracos, asfalto, ruas novas, novas avenidas. Teatro, Museu, Semana de Arte Moderna. Luz, água, telefone. JK queria mais, queria coisas novas, atuais, sair da rotina das prefeituras tradicionais. Imaginou um plano para transformar a Pampulha num bairro aprazível, moderno, onde a população se divertisse, passasse seus fins de semana e suas noites, tão bonitas em BH, à beira do lago. Convocou arquitetos. Pediu sugestões. Projetos, projetos, muitos projetos. Todos, porém marcados pelo estilo oficial das construções da cidade. Tradicionais. Convencionais. Desejava coisa nova, moderna. Queria futuro e lhe traziam passado.
Angustiado, esperava encontrar alguém que traduzisse em obras, em concreto, tudo que sonhava para a Pampulha.
Vai visitá-lo em Belo Horizonte o Dr. Rodrigo Melo Franco, Diretor do Departamento do Patrimônio Nacional, do Ministério da Educação. JK fala-lhe de sua frustração. Recebera vários projetos, porém nenhum se adequava aos seus planos. Rodrigo Melo Franco fala-lhe de um jovem arquiteto, da escola de Le Corbusier: Oscar Niemeyer, que se encontrava na cidade.
Juscelino se interessa. Quer conhecer o moço. Manda buscá-lo no Grande Hotel onde estava hospedado e trazê-lo ao seu gabinete. Nascia uma grande amizade. Enquanto Juscelino viveu, estiveram unidos por laços que juntam pessoas cuja sensibilidade as torna parecidas. Oscar jamais faltou ao amigo. Depois do falecimento do Presidente, seria ainda o zeloso Niemeyer o autor do projeto de sua sepultura no Campo da Esperança. Mais tarde, projetaria o Memorial JK, cuja beleza e sobriedade dão bem o tom do respeito e da admiração que nutria pelo amigo morto. Naquele dia, em Belo Horizonte, Oscar haveria de surpreender o audacioso prefeito. Na mesma tarde foram ao local das futuras obras. Oscar anota, traça linhas, estuda o relevo, vê a topografia; no dia seguinte, Rodrigo Melo Franco leva Juscelino ao hotel do arquiteto para ver os projetos. Folhas e mais folhas de papel espalhadas pelo chão e pelas paredes. Juscelino via tudo, sem entender nada. Eram riscos, rabiscos, perfis de prédios, rampas. Na medida em que o jovem arquiteto fazia sua exposição, o Prefeito ia antevendo e mentalizando tudo o que estava no papel, e que correspondia, exatamente, ao que sonhara. A leveza do traço, a curva sensual das linhas, a racionalidade e a mistura das artes plásticas (escultura, pintura, urbanismo, paisagismo) na sua arquitetura, somados à sua inteligência e capacidade de criar e expor, encantaram Juscelino.
Estava-se formando ali, sem que ninguém suspeitasse, o embrião da Brasília Monumento. Da Brasília Patrimônio Cultural da Humanidade. Mais tarde, o mesmo Oscar Niemeyer viria para Brasília. Brasília, o novo sonho do Presidente Juscelino Kubitschek. A amizade nascida de um plano de obras, na década de 40, perduraria por longos anos. Niemeyer e Juscelino não mais se afastariam. Além da amizade que os unia, Juscelino tinha enorme admiração pela simplicidade, pela criatividade, pela inteligência, pela arte e pela genialidade de Oscar Niemeyer. Este, por sua vez, admirava em Juscelino o amigo, o administrador, o estadista, o homem público, a pessoa humana que foi. Juscelino nos deixou, para realizar suas obras em planos mais elevados. Oscar foi agora encontrá-lo. Talvez façam em plano superior, as maravilhas que realizaram juntos neste Brasil hoje tão sofrido.
Affonso Heliodoro
13.12.2012

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